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Eyehategod no RCA Club

De falhados para falhados, e riff após riff, os sempre despretensiosos Eyehategod servem-nos o fracasso de bandeja, sem elogio que o romantize. Aqui não há espaço para melancolia bonitinha dos filmes, nem para a vaidade mascarada de depressão dos artistas com egos inchados. Os blues dos Eyehategod, com décadas de self-medication e más escolhas em cima, faz-se preto no branco, sem m****s.

Não, não dá para ver a coisa de uma perspectiva alternativa e fazer do trabalho dos Eyehategod algo remotamente belo. Mike IX Williams discorre sobre um mundo onde não se joga limpo, onde te vão cuspir na cara e atacar à traição. Bem-vindo a Dopesickville.

Com o quinto álbum de originais – o primeiro em catorze anos – editado no ano passado, os Eyehategod hastearam no RCA Club, em Lisboa, a bandeira do mais castiço sludge de New Orleans, provando serem merecedores do bom nome que cultivaram ao longo destes 27 turbulentos anos.

Na primeira parte esteve a Besta, que nada tem a provar por estes lados, e os algarvios Crossed Fire.

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Jex Thoth @ RCA Club: Um ritual hipnótico

O culto ao paganismo encontrou em Jex Thoth a sonoridade perfeita para a sua exaltação. Na música do grupo norte-americano, o ocultismo obscuro das letras é, simultaneamente, cintilante e libertador. Os sentimentos de evasão espiritual atingem ao vivo proporções ainda mais alucinantes. Tal como aconteceu, no sábado passado, no RCA Club, no Bairro de Alvalade, em Lisboa. Na mesma noite, além da estreia absoluta na Península Ibérica da banda liderada por Jessica Thoth, também os seus compatriotas Cult of Youth pisaram pela primeira vez os palcos lusos. O resultado final? Uma experiência sonora enigmaticamente bela e transcendental.

O primeiro concerto da noite estava agendado para as 21h15, contudo, alguns atrasos ditaram o prolongar dos espetáculos. A honra de abrir as hostes coube, então, aos portugueses Crude. Edgar Mendes (guitarra), Ivan do Carmo (baixo) e Pedro Baptista (bateria) compõem o power trio vencedor do concurso Finding the Way, que lhes valeu presença garantida na próxima edição do Sound Bay Fest.

“É um prazer estar a abrir para Jex Thoth, uma banda que há muito admiro”, afirmou o baixista, perante um público donde sobressaía a misteriosa vocalista norte-americana. Embora a plateia estivesse, naquela altura, um pouco desprovida de gente, os Crude não se deixaram inibir e deram mostras do seu talento. Com uma sonoridade caraterizada pela mescla de stoner com progressivo, o power trio deixou bons apontamentos. Ficou a curiosidade para ver e ouvir mais.

De Brooklyn, Sean Ragon – antigo baixista dos Love as Laughters – trouxe os seus Cult of Youth até nós. As influências tribais, post-punk, neo-folk que emanam dos norte-americanos tornam difícil descrever a banda. Mas também não é preciso. Dispensam-se rótulos quando a música é feita para ser ouvida mas, acima de tudo, sentida. De facto, esta é mesmo a ideia mais presente no processo criativo de Ragon.

A setlist que os Cult of Youth tocaram percorreu um pouco toda a sua discografia, com especial incidência para “Love Will Prevail” (2012). “A New Way (Version)”, “Garden of Delights” ou “New Old Days” foram apenas algumas das faixas escolhidas. Uma vela acesa e aromas no ar conferiram outro ar à atuação. E, claramente, um dos segredos dos Cult of Youth – como se pôde comprovar – parece residir no violoncelo de Paige Flash.

“Final Days”, terceiro disco lançado sob a batuta da prestigiada Sacred Bones Records, não foi esquecido. “Sanctuary” fez-se ouvir para cumprimentar o público e “Roses”, pelo contrário, deu por terminado o serão. Nota para o facto de também ser sido tocada aquela que é uma das suas melhores canções: “New West”, do álbum homónimo (2011).

Apesar de se distanciarem, em grosso modo, do doom e psicadelismo de Jex Thoth, os Cult of Youth abriram caminho de forma eficaz. Um verdadeiro florir em tons exímios e energicamente soturnos.

O espetro do doom metal/rock psicadélico está repleto de grandes vozes femininas. Derradeiras e dignas representantes do revivalismo dos anos 70. Blood Ceremony, Jess and The Ancient Ones, Windhand, Acid King ou Royal Thunder são apenas alguns dos muitos exemplos. Neste contexto, destaca-se também Jex Thoth. Presença assídua na plateia do RCA durante os concertos antecedentes, quando chegou a vez da sua estreia ibérica, a norte-americana proveniente de Wisconsin não desiludiu.

De novo, acenderam-se velas, desta vez várias. Imediatamente criou-se um ambiente esotérico. O cenário ideal para a viagem sonora seguinte: Black Sabbath nos riffs e Amon Düül II em espírito. “The Bury” abriu a excursão melómana. A voz portentosa e a conexão pura com a música que compõe foram uma constante, desde o início ao fim, na performance da vocalista.

“Blood Moon Rise” (2013), o segundo LP da banda, foi um dos privilegiados na setlist. “The Divide”, “Into a Sleep” ou, por exemplo, “Keep Your Weeds” fizeram as delícias dos espectadores. No ativo desde 2007, os Jex Thoth fizeram uma incursão a trabalhos passados, salientando-se o tema “Raven Nor The Spirit”, do EP “Witness”.

Numa noite propícia a jornadas para diversas estâncias, a inclusão de temas do álbum homónimo (2008) fez toda a diferença. Falamos, claro, de “Separated at Birth” ou “Nothing Left To Die”. No entanto, no encore estavam reservadas mais e agradáveis surpresas. “I’m a warrior woman and I’ve got the prophecy. As a warrior woman I exactly as I please” (‘sou uma mulher guerreira e tenho a profecia. Como uma mulher guerreira, faço exatamente o que pretendo’, em português) – estes versos retirados de “Warrior Woman” retratam fielmente Jex e a sua música: total liberdade das limitações físicas e supérfluas.

O último grito desta ‘guerreira’ do doom deu-se com “Son of Yule”. Uma viagem a reter.

Texto: Filipa Santos Sousa

The Saints: O que é afinal isso do punk?

“Estamos na estrada, a caminho de Granada.” Chris Bailey explica que acabou de sair da carrinha da banda, onde o ruído não era consentâneo com uma entrevista, para falar à beira da estrada com o Ípsilon. Está a dois passos de Almería, deslumbrado com a paisagem natural fora deste mundo daquela zona da Andaluzia, e recorda que ali foram rodados alguns dos clássicos westerns de Sergio Leone. “Parámos numa pequena aldeia no sopé de uma grande montanha e almoçámos num pequeno restaurante, muito rústico. Isto é uma das boas partes do rock’n’roll. É como estar num filme.” É?

Não imaginaríamos que uma refeição numa pequena tasca, numa pequena aldeia do Sul de Espanha, fosse incluída por Bailey na lista de itens rock’n’roll. Ele é, afinal, vocalista, compositor e guitarrista dos The Saints, banda que directamente dos antípodas, em Brisbane, Austrália, deu arranque à explosão punk com o hino de ferocidade e alienação intitulado (I’m) stranded – tão marcante que levou Nick Cave a defender que, para a sua geração, os Saints eram inspiradores ao ponto de atingirem naquele final da década de 1970 um estatuto de quase divindade, culpa do rock’n’roll zangado, insatisfeito e acelerado que tocavam e dos concertos incendiários que, não raras vezes, provocavam tumultos com as autoridades de um país à época tremendamente conservador.

É com essa memória na cabeça, antecipando a estreia da banda em Portugal esta sexta-feira (Stairway Club, Cascais, 22h; primeira parte pelos portugueses The Dirty Coal Train e Clockwork Boys), que ouvimos Bailey falar deliciado da calmaria na pequena tasca. É com essa memória que o ouviremos, pouco depois, exclamar que solta sempre uma gargalhada quando chamam aos The Saints “uma banda punk-rock”: “Sou um homem velho e já não consigo identificar-me com isso.” Bailey tem 57 anos. Velho não será. De qualquer modo, não seria preciso chegar a velho para dizer que não se identifica com o termo punk-rock. Isto não é de agora. Foi isso, aliás, que fez dos Saints uma banda especial nesse momento em que Sex Pistols, The Clash, Buzzcocks ou The Damned faziam estremecer as placas tectónicas da música popular urbana. “Há muito a dizer sobre o isolamento australiano”, comentará. “Fez com que nunca pertencêssemos a uma cena.”

Fundados em Brisbane em 1973 por Chris Bailey, um filho de irlandeses nascido no Quénia e emigrado para a Austrália na infância, pelo guitarrista Ed Kuepper, nascido em Bremen, Alemanha, e pelo baterista e mais tarde teclista Ivor Hay, os The Saints nasceram do encontro de dois músicos com interesses comuns. “Eu e o Ed criámos uma relação baseada na música que partilhávamos. A soul, o blues e também a boa música pop da época em que cresci [os anos 1960]. Continuo a dizer que parte de mim quer ser um americano negro e cantar como a Nina Simone ou o Otis Redding. Mas sou um tipo branco do centro da Europa e não canto como eles.” Junte-se a essa discografia partilhada a questão hormonal: “O puro prazer físico que proporciona o rock’n’roll, música sexual que podes dançar, e que, quando és adolescente e tens as hormonas a trabalhar a toda a hora, é muito excitante.” E acrescente-se ainda, para perceber como foi punk esta banda que não gostava de ser classificada como tal, o contexto da época: “Vivíamos os anos da crise do petróleo e a música tinha-se tornado simplesmente mais uma extensão corporativa.”

Notícia completa http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/the-saints-o-que-e-afinal-isso-do-punk-1693153

Sound Bay Fest: Os 5 melhores momentos do festival

O Sound Bay Fest teve lugar no passado dia 4 de Abril, no Room 5, em Lisboa, e deu que falar. Um festival pequeno, mas com nomes de peso, encheu e fez chorar por mais. A primeira edição do festival contou com nomes como Radio Moscow, The Picturebooks e os portugueses Black Bombain.

Mosh, crowdsurfing, boa música e casa praticamente cheia não faltaram à festa, havendo ainda muitas surpresas pelo meio. Foi no seu todo, um bom festival e cá esperamos pela segunda edição. Deixamos abaixo o nosso top 5, dos que foram para nós os melhores concertos deste festival.

Notícia completa http://watchandlistenpt.blogspot.pt/2015/04/sound-bay-fest-os-5-melhores-momentos.html

Soviet Soviet @Sabotage Club – Lisboa [14Jan2015] Texto+Fotos

De volta a Lisboa, mas com casa diferente, os Soviet Soviet encheram o Sabotage Club de um pós-punk barulhento e ensurdecedor que nos fazia sentir as tíbias a tilintar dentro dos nossos corpos.

Sem banda de abertura, foi levar com os italianos diretamente na cara, foi explodir logo dentro dos sonoros soviéticos que rebentavam de um baixo ”bacalhau” cheio de truques e manhas. Com 3 álbuns no bolso, espremidos para aproximadamente 1 hora e 15 minutos de concerto, fizeram-nos cantar, suar e saltar. Pena o público não ser mais fervilhante mas a timidez ou, talvez, alguma falta de interesse, não deu para mais. Desde conversas de tasca a publicações no Facebook, com faróis retangulares a encadearem os vizinhos, a falta de energia vinda do lado de cá era cada vez mais marcante naquele que podia ser um concerto de cortar a respiração e de sair de lá com umas quantas pisadelas nos dedos dos pés.

Temas como “Further” e “1990” ainda fizeram o pessoal saltar e prestar mais atenção, ambas do último álbum, Fate, lançado em 2013. O momento de fechar os olhos e deixarmo-nos levar pelos arrastos da guitarra e os gritos profundos do baixo, ocorre ao som de “Hidden” quando o ambiente se tornou mais sonhável… “dreamy”. Já perto do fim, a banda aproveitou as suas influências live de A Place To Bury Strangers e alteraram a direção das colunas para todo o ruído destorcido vir direito para nós. O baixo ficou deitado e a pedaleira transformou-se numa turntable. O pós-punk deu lugar a um drone gritado por um fã (com uma tshirt de Bambara) que terminou com olhares de duelo entre palco e plateia. O noise intensificou o fim da atuação que merecia encore hoje, amanhã, depois de amanhã… todos os dias.

O Porto que se prepare, que pelo que a experiência diz, o público vai esmagar dedinhos e fazer rolar cabeças.

Notícia completa http://www.wavmagazine.net/reportagens/soviet-soviet-sabotage-club-lisboa-14jan2015/