Jex Thoth @ RCA Club: Um ritual hipnótico

12
Nov
2015

O culto ao paganismo encontrou em Jex Thoth a sonoridade perfeita para a sua exaltação. Na música do grupo norte-americano, o ocultismo obscuro das letras é, simultaneamente, cintilante e libertador. Os sentimentos de evasão espiritual atingem ao vivo proporções ainda mais alucinantes. Tal como aconteceu, no sábado passado, no RCA Club, no Bairro de Alvalade, em Lisboa. Na mesma noite, além da estreia absoluta na Península Ibérica da banda liderada por Jessica Thoth, também os seus compatriotas Cult of Youth pisaram pela primeira vez os palcos lusos. O resultado final? Uma experiência sonora enigmaticamente bela e transcendental.

O primeiro concerto da noite estava agendado para as 21h15, contudo, alguns atrasos ditaram o prolongar dos espetáculos. A honra de abrir as hostes coube, então, aos portugueses Crude. Edgar Mendes (guitarra), Ivan do Carmo (baixo) e Pedro Baptista (bateria) compõem o power trio vencedor do concurso Finding the Way, que lhes valeu presença garantida na próxima edição do Sound Bay Fest.

“É um prazer estar a abrir para Jex Thoth, uma banda que há muito admiro”, afirmou o baixista, perante um público donde sobressaía a misteriosa vocalista norte-americana. Embora a plateia estivesse, naquela altura, um pouco desprovida de gente, os Crude não se deixaram inibir e deram mostras do seu talento. Com uma sonoridade caraterizada pela mescla de stoner com progressivo, o power trio deixou bons apontamentos. Ficou a curiosidade para ver e ouvir mais.

De Brooklyn, Sean Ragon – antigo baixista dos Love as Laughters – trouxe os seus Cult of Youth até nós. As influências tribais, post-punk, neo-folk que emanam dos norte-americanos tornam difícil descrever a banda. Mas também não é preciso. Dispensam-se rótulos quando a música é feita para ser ouvida mas, acima de tudo, sentida. De facto, esta é mesmo a ideia mais presente no processo criativo de Ragon.

A setlist que os Cult of Youth tocaram percorreu um pouco toda a sua discografia, com especial incidência para “Love Will Prevail” (2012). “A New Way (Version)”, “Garden of Delights” ou “New Old Days” foram apenas algumas das faixas escolhidas. Uma vela acesa e aromas no ar conferiram outro ar à atuação. E, claramente, um dos segredos dos Cult of Youth – como se pôde comprovar – parece residir no violoncelo de Paige Flash.

“Final Days”, terceiro disco lançado sob a batuta da prestigiada Sacred Bones Records, não foi esquecido. “Sanctuary” fez-se ouvir para cumprimentar o público e “Roses”, pelo contrário, deu por terminado o serão. Nota para o facto de também ser sido tocada aquela que é uma das suas melhores canções: “New West”, do álbum homónimo (2011).

Apesar de se distanciarem, em grosso modo, do doom e psicadelismo de Jex Thoth, os Cult of Youth abriram caminho de forma eficaz. Um verdadeiro florir em tons exímios e energicamente soturnos.

O espetro do doom metal/rock psicadélico está repleto de grandes vozes femininas. Derradeiras e dignas representantes do revivalismo dos anos 70. Blood Ceremony, Jess and The Ancient Ones, Windhand, Acid King ou Royal Thunder são apenas alguns dos muitos exemplos. Neste contexto, destaca-se também Jex Thoth. Presença assídua na plateia do RCA durante os concertos antecedentes, quando chegou a vez da sua estreia ibérica, a norte-americana proveniente de Wisconsin não desiludiu.

De novo, acenderam-se velas, desta vez várias. Imediatamente criou-se um ambiente esotérico. O cenário ideal para a viagem sonora seguinte: Black Sabbath nos riffs e Amon Düül II em espírito. “The Bury” abriu a excursão melómana. A voz portentosa e a conexão pura com a música que compõe foram uma constante, desde o início ao fim, na performance da vocalista.

“Blood Moon Rise” (2013), o segundo LP da banda, foi um dos privilegiados na setlist. “The Divide”, “Into a Sleep” ou, por exemplo, “Keep Your Weeds” fizeram as delícias dos espectadores. No ativo desde 2007, os Jex Thoth fizeram uma incursão a trabalhos passados, salientando-se o tema “Raven Nor The Spirit”, do EP “Witness”.

Numa noite propícia a jornadas para diversas estâncias, a inclusão de temas do álbum homónimo (2008) fez toda a diferença. Falamos, claro, de “Separated at Birth” ou “Nothing Left To Die”. No entanto, no encore estavam reservadas mais e agradáveis surpresas. “I’m a warrior woman and I’ve got the prophecy. As a warrior woman I exactly as I please” (‘sou uma mulher guerreira e tenho a profecia. Como uma mulher guerreira, faço exatamente o que pretendo’, em português) – estes versos retirados de “Warrior Woman” retratam fielmente Jex e a sua música: total liberdade das limitações físicas e supérfluas.

O último grito desta ‘guerreira’ do doom deu-se com “Son of Yule”. Uma viagem a reter.

Texto: Filipa Santos Sousa